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segunda-feira, 2 de junho de 2014

Debaixo de Algum Céu, de Nuno Camareiro


* Podem requisitar este livro na biblioteca Ângelo Casal.

Tudo se passa numa povoação encostada ao mar a alguns quilómetros de uma cidade média. De inverno vivem ali pouco menos de dois mil habitantes, entre pescadores, gente pobre, famílias fugidas da urbe e alguns homens estranhos, apaixonados pelo mar ou desiludidos do resto.

Um prédio chegado à praia e um inverno pesado e frio, de cobertores húmidos e doenças nos pulmões que silvam ao respirar. O mar ouve-se de bravo e, quando não é o mar, é o vento a imitar-lhe a raiva. Dentro do prédio procura-se calor no que há: caldeiras, corpos e alimento.

Neste cenário decorre Debaixo de Algum Céu, de Nuno Camareiro. O tempo é o que vai de um 25 de dezembro a um 1 de janeiro. 



As personagens são os moradores do prédio: o padre Daniel; a família de Bernardino e Manuela; Margarida, viúva, com os livros do marido holandês na sala; Adriano e Constança com a bebé Diana; e no rés-do-chão, David, o inquilino que mais se esconde.

Marco Moço anda à procura de despojos por aquelas praias – aquilo que na Galiza é chamado de crebas: o mar devolve à terra. Com os despojos, Marco Moço quer construir uma máquina para apanhar memórias.

Uma história são pessoas num lugar por algum tempo, diz-se algures no início do livro. O lugar não tem neste caso nome concreto – o leitor é que ativa o GPS das suas lembranças: como em Portugal e na Galiza não faltam lugares assim, acaba por imaginá-lo com nitidez.

O mar é que está sempre presente, ajudando com os seus despojos a fazer algum sentido desse quebra-cabeças de memórias e desejos que é qualquer Natal. Um mar aberto e imenso, como o dos poemas de Sophia Mello de Breyner Andresen, também citada neste livro.

Para quem vive no Purgatório, como estas criaturas em crise permanente, o caminho para o céu ou para o inferno depende apenas dos gestos mais pequenos, aqueles que garantem a sobrevivência e conseguem resgatar os despojos de amor que conseguem dar sentido à vida:

O amor não é fácil em nenhuma idade e dói tanto ceder-lhe como fugir-lhe. Mas o amor é o que há, e eu estou velho para morrer sozinho.

Do emaranhado de histórias deste livro, levantamos da areia a ironia delicada das palavras de Nuno Camareiro, que às vezes se aproximam da poesia sem chegar nunca a enjoar – essa qualidade na linguagem foi um dos argumentos para a atribuição do prémio Leya de 2012 ao livro.

Sou pobre, mas de sentimentos delicados, diz Colometa, a protagonista de La Plaça del Diamant, de Mercé Rodoreda. O mesmo podemos dizer das personagens que sobem e descem as escadas deste prédio, Debaixo de algum céu.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Neighbours, de Lília Momplé

Neighbours está na biblioteca da EOI, dentro do percurso de leitura Autoras Moçambicanas. 

Não sei o que surpreende mais ao pegar neste livro: o título em inglês, o quadro da pintora Catarina Temporário na capa; ou o subtítulo: Quem não sabe de onde vem, não sabe onde está nem para onde vai. 


"Neighbours" não é uma série de TV estadunidense, mas um romance desses que nos interrogam e desassossegam.

Na década de 80 do século passado, agentes sul-africanos, viajaram a Moçambique com a encomenda de perpetrar assassínios, em retaliação pelo acolhimento dado em Moçambique a membros do CNA (Congresso Nacional Africano), que naquela altura combatia o Apartheid. Em muitos casos o alvo dos ataques eram os vizinhos dos refugiados, e não eles próprios.

O Moçambique retratado neste livro ainda não chegara aos dez anos de independência, e estava submerso numa guerra civil que irá até 1992. A par da violência, o povo vive submerso em grandes dificuldades económicas, quando não mesmo miséria. A capital Maputo sofre grandes problemas de abastecimento, e os trabalhadores não têm poder de compra para ir além de uma alimentação mínima:


Com efeito, a farinha de milho e o repolho e, por vezes, o carapau congelado, têm sido, durante os três últimos anos, os únicos produtos acessíveis no mercado de Maputo. Quanto ao resto, ou não existe ou é vendido na candonga ou na Interfranca a cooperantes ou a uns tantos moçambicanos privilegiados ou ladrões. O trabalhador comum tem de contentar-se, diariamente, com a infalível upswa e o repolho que, na gíria popular, se tornou conhecido pelo agradecido nome de "se não fosses tu". 

A narrativa aproxima-nos tanto das vítimas quanto dos assassinos, em capítulos estruturados consoante as horas do mesmo dia. São méritos do livro esse  vaivém entre as luzes e as sombras, e a aproximação aos fatores humanos de um crime politicamente motivado.

Ora, as mulheres é que são as grandes protagonistas do romance. É frequente terem sido arrastadas a matrimónios com homens que pouco se importam com elas, quando não são abertamente infiéis ou mesmo violentos. Só nalguns casos essas mulheres se sobrepõem ao seu destino: a Muntaz que consegue estudar medicina sem apoio da família; a Leia que, depois de um casamento de conveniência, encontra um companheiro digno em Januário; ou a Mena que denuncia o assassínio que o seu marido está envolvido.

 
Com a história de Moçambique como pano de fundo, Neighbours é antes do mais a narrativa das pessoas concretas que acabam por ser vítimas de esquemas alheios a elas. Apesar da dureza das condições, sempre resta uma margem para a escolha entre o bem e o mal. 

Lilia Momplé também nos oferece um lampejo dos usos e costumes do país, no que toca, por exemplo, às comidas, relações de casal, coexistência entre línguas diversas, ou até as dificuldades para alugar um apartamento em Maputo. O glossário final é de grande ajuda, mas as dificuldades de vocabulário nunca chegam a atrapalhar a leitura.

Enfim: só têm de ir à biblioteca e começar a ler. Recomendo mesmo este Neighbours.

sábado, 3 de maio de 2014

Os Porquinhos do Planeta Lusitânia.


Pedi aos estudantes do básico que aproveitassem a Páscoa para ler um livro e escrever um pequeno texto a imaginar que eles próprio tinham entrado dentro da obra. Eis um dos exemplos que me chegaram, da turma do básico das 20h30.

Num futuro distante, a humanidade expandiu-se por 100 planetas.
O planeta chamado Lusitânia foi colonizado por pessoas do Brasil, por isso as línguas oficiais são o português e stark (língua comum a todos os humanos).
Eu sou um Porquinho. Os primeiros colonizadores confundiram-nos com um animal da Terra. Eles ficaram muito surpreendidos ao comprovar que somos inteligentes. Somos a segunda espécie inteligente que os humanos topam, e como a primeira a exterminaram, eles são muito protetores connosco. Os terrícolas não querem influir em nós. Quase não se relacionam connosco, e por isso eles não sabem como vivemos. 


Fonte da imagem: http://agendadolivro.blogspot.com.es/2011/06/em-meu-primeiro-posto-vou-falar-nao-de.html
No meu nascimento, a minha mãe deu a vida por mim, permitindo que me alimentasse dela. Na minha primeira vida, vivi dentro da árvore-mãe, alimentando-me da seiva. Esta vida é de escuridão total. Era uma larva.
 Depois, quando saí da árvore, foi com a forma de porquinho. Nesta etapa da vida, estou no meio do caminho para a luz.
Gosto muito de brincar, subir às árvores, e passear pela floresta. Às noites costumo ir até à colónia dos humanos para espiá-los.
Desejo passar à terceira vida. passarei se consigo ser um herói de guerra, ou contribuir com algo lucrativo para a nossa sociedade. Eu estou a investigar aos humanos. Quero conseguir para o nosso povo alguns dos segredos dos homens para melhorar as nossas vidas. Se o faço, vão-me dar passo a nova vida.
A Transformação à terceira vida consiste em que um amigo me abre a barriga, e espalhará os órgãos pelo chão. Da minha coluna vertebral brotará uma árvore. Vou-me converter nelas, viverei muitos anos, serei adorado e poderei ser pai de muitos porquinhos. Sendo árvore pai, são consciente de tudo o que me rodeia, podendo falar com os porquinhos, e assim assessorar as minhas crianças.
Nesta vida, gostarei muito de apanhar sol. Chegarei à luz. Serei uma árvore.

terça-feira, 1 de abril de 2014

A Casa do Rio Vermelho

Aproveitando que o nosso clubinho Léria se debruçava sobre os Capitães da Areia, de Jorge Amado, resolvi ler este A Casa do Rio Vermelho, de Zélia Gattai.

O livro relata o período em que Zélia e Jorge moraram juntos nessa casa da Rua Alagoinhas, em Salvador de Bahia, entre a década de 60 e a de 90 do século passado. No fim deste post, podem ler um excerto da passagem de Jorge Amado e Zélia Gattai pela Galiza. 

Para quem o queira ler, o livro está disponível na biblioteca Ângelo Casal.


Filha de migrantes italianos, Zélia Gattai nasceu em São Paulo em 1916. Cresceu num ambiente de luta operária, entre migrantes portugueses, italianos e espanhóis - muitos deles galegos, previsivelmente. O livro Anarquistas graças a Deus dá boa conta deste período da vida da autora.

Zélia conhece Jorge Amado em 1945, no meio de uma campanha pela amnistia de presos políticos. O longo relacionamento que iniciou com o escritor bahiano irá até a morte deste, em 2001. O Rio de Janeiro, a Checoslováquia, Paris e, nomeadamente, Salvador, serão alguns dos cenários da vida em comum do casal.

A Casa do Rio Vermelho começa com a viagem do casal do Rio até Salvador, num Citroen ID19, que Jorge Amado batizaria como Cara de Sapo. João Jorge filho fazia então13 anos, e os pais resolvem mudar-se para a Bahia, assustados com o ambiente de violência que se vivia no Rio.

A primeira parte do livro narra as peripécias do casal à procura de uma casa, que acaba por ser aquela que dá nome ao livro. Para além do interesse na vida da Zélia e Jorge Amado, o livro dá-nos bons exemplos dos ritmos da vida em família no Brasil - uma família no mais amplo dos sentidos, com amigos sempre em volta, como o pintor Bahiano Carybé.



Pela Casa do Rio Vermelho passarão, entre muitos outros: Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Harry Belafonte (cantor de calypso), Sofia Loren, Pablo Neruda, Pierre Verger, Carlos Bastos (pintor), Amália Rodrigues, Dorival Caymmi, Vinícius de Moraes, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Mário Soares, e os escritores portugueses Ferreira de Castro e Fernando Namora. Um dos hóspedes habituais era o cantor Georges Moustaki, que compôs duas canções à Bahia, sendo que numa delas o próprio Jorge Amado é citado.



O livro dá também boa conta das viagens de Jorge Amado e Zélia Gattai. Numa das primeiras que se relatam, a Cuba, o casal vai ter com o poeta Nicolás Guillén.

Nessa visita, Jorge Amado, comunista pouco ortodoxo, pediu para visitar um Terreiro de Candomblé em Havana. Ora, os camaradas cubanos respondem que já não há candomblé em Cuba:

Jorge quis assistir a um candomblé e eles disseram que não havia candomblés em Cuba. Num discurso de despedida, para uma grande plateia de intelectuais e de leitores seus, Jorge disse o quanto lamentava não ter encontrado um terreiro de candomblé em Cuba, o quanto repudiava o sectarismo e que não concordava com qualquer restrição religiosa, fosse ela qual fosse (Página 59)

Outras vertentes interessantes do livro são as relações com escritores portugueses; as alusões à ditadura que se iniciou em 1964; os filmes baseados em livros de Jorge Amado;  episódios como o do enterro do famoso cangaceiro Corisco; ou o processo de escrita de algumas obras de Jorge Amado, como os apontamentos autobiográficos de Navegação da Cabotagem.

Interessa também a própria autodescoberta de Zélia Gattai enquanto escritora, quando já tinha 63 anos. A sua escrita estaria marcada pela naturalidade da linguagem e a falta de pretensionismo literário, virtudes raras de encontrar.

Para finalizar, deixo aqui o excerto que diz respeito a uma passagem do casal pela Galiza, provenientes de Portugal e a caminho da Escandinávia. Achei engraçado que esta epígrafe leva-se por título Rumo à Dinamarca, como se fôssemos um barco prestes a partir para algum outro lugar.

 Fonte da imagem: colegioativoliterativo.blogspot.com
RUMO À DINAMARCA

Zélia Gattai, em A Casa do Rio Vermelho

Num Mercedes preto, com motorista e tudo, carro alugado em Lisboa, saímos numa viagem pelo norte de Portugal, atravessamos serras e planícies, passamos a fronteira com a Espanha. Nos divertimos constatando a diferença de caráter entre os vizinhos, tão próximos e tão distantes na maneira de ser.

Deixávamos Portugal e antes de atravessarmos a fronteira lemos numa parede: Um dia o sol brilhará para todos. Logo abaixo, a intromissão de um gaiato: E nos dias de chuva?

Mal pisamos a Espanha, lemos na fachada de uma casa, em letras garrafais: Te odio, te odio y te odio!

Em Vigo almoçamos no restaurante El Mosquito os mais deliciosos frutos do mar. Jorge fez questão de passar com Arlete por uma papelaria, nossa conhecida, atração e divertimento de brasileiros que por ela passam, interessados no nome do proprietário escrito na fachada da casa comercial: Papeteria Juan Buceta.

Nosso destino era Santiago de Compostela, passaríamos, a caminho, por Pontevedra, onde tínhamos amigos. Lá encontraríamos Manolo ou José Alberto Moreira, donos do melhor antiquário da Bahia. Os Moreira tinham em Pontevedra uma sucursal ou matriz, não sei, da casa de antigüidades. Nessa cidade também viviam alguns baianos casados com galegos. Por onde passávamos íamos encontrando conhecidos.

Santiago de Compostela é a cidade de meus encantos. Não víamos a hora de chegar à catedral, não queríamos perder a impressionante cerimônia do bota fumero, quando um gigantesco turíbulo suspenso ao alto por grossas cordas é balançado de um lado a outro da igreja, a velocidade aumentando cada vez mais, a fumaça do incenso se espalhando, invadindo tudo.

Havia fila para reverenciar Santiago de Compostela, cuja imagem estava instalada no centro do altar-mor.

Paramos para ver, dentro do templo, nas suas laterais, enormes pinturas, onde Santiago, montado a cavalo, de espada em punho, decepa cabeças, mata os mouros que o rodeiam. Por isso o chamavam Santiago Mata Moros, explicava um guia de turismo a um grupo queacompanhava.

Eu estava doida para me aproximar da imagem, no altar, ao alto,coisa fácil pois era só subir uma escadinha atrás, que dava acesso àscostas do santo. Esperei que um grupo de turistas acabasse de subir, fui atrás. Naquele ambiente sombrio, a proximidade com a imagem me impressionou. Queria dar-lhe um beijinho e para completar o carinho devia também abraçá-lo. No momento em que o abraçava e beijava-lheas costas, ouvi uma gargalhada, aliás, duas gargalhadas. Sem me separar de Santiago, olhei para o lado, onde Arlete e Paloma morriam de rir. Eu não estava ali por caçoada, nem por devoção, apenas tivera esse ímpeto e fora adiante. Não sei se foi impressão minha ou não, senti Santiago tremer na base, não devia estar muito preso. Nesses momentos a gente pensa nos maiores absurdos, e eu pensei: e se aimagem desabar sobre o altar e eu junto, grudada em suas costas?

Atacou-me uma vontade louca de rir, sobretudo ao ver que Jorgec hegara junto à escadinha e ria com as duas. Não conseguia me soltar do santo, atrás de mim a fila aumentava e eu ali, fingindo que choravade emoção, recurso instintivo, evitaria ser linchada caso descobrissem afalta de respeito, rir daquele jeito nas costas de Santiago deCompostela. Situação tragicômica, inesquecível, nos rende boas risadas todas as vezes que a recordamos. Nosso destino era a França onde pararíamos uns poucos dias em Paris, antes de prosseguirmos a viagem para a Escandinávia.

(Páginas 199-200)
Joseph escreveu este post sobre A Casa do Rio Vermelho.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Porquê ler «Capitães da areia» de Jorge Amado?

  Leonardo (Básico Integrado, 20h00)

Na semana passada acabei de ler o romance «capitães da areia» do Jorge Amado. É desses livros que uma pessoa nunca quer que acabe.
«Capitães da areia» é um clássico da literatura brasileira e tem motivos bastantes para o ser. Aliás, é um livro curto que está escrito de maneira ágil e com uma língua fácil de compreender para um aluno do nível básico.
O livro conta a história dum grupo extenso de meninos da rua, órfãos que vivem num trapiche (uma sorte de armazém) abandonado e próximo do cais. As crianças são comandadas por Pedro Bala, líder carismático e autêntico protagonista do romance. O roubo, os enganos e as fraudes são o seu meio de vida. 
O Professor, Sem-Pernas, Volta-Seca, Gato, Pirulito, Boa-Vida, Dora, são alguns dos meninos que logo acabamos por conhecer e compreender, porque o Jorge Amado desenha uns personagens com uns perfis psicológicos verdadeiramente complexos e profundos. 
O dia-a-dia dos meninos permite chegar-nos ao Salvador de Bahia dos anos 30: uma cidade marcada pela crise originada na Grande Depressão de 1929, pelas diferenças sociais e por uma exuberante diversidade racial e cultural. 
Fonte da Imagem: http://www.universodosleitores.com/2013/02/o-pais-do-carnaval-de-jorge-amado.html
 
Ora bem, o romance apenas mostra uma parte dessa cidade: A Bahia da pobreza, dos malandros, do candomblé, dos capoeiristas, dos estivadores, dos doqueiros, das mulheres da vida, da varíola, e também dos Capitães da Areia; uma Bahia radicalmente separada e rejeitada pela burguesia dominante.
Jorge Amado oferece de forma crua, sem edulcorantes, a luta diária pela supervivência dos capitães.  Mas não é uma historia triste e sem esperança. O livro está carregado de um otimismo contagiante. Apesar de diversos episódios certamente traumáticos (que não vou desvelar), o autor crê num futuro para muitos dos meninos. Alguns até acabarão por ganhar consciência de classe e lutarão para mudar a situação de todos eles.
Provavelmente este espírito positivo tenha a sua explicação em que o Jorge Amado escreveu o romance quando só tinha 27 anos.
Não posso deixar de pensar que uma Bahia similar a esta foi a que achou o meu avô apenas uma década depois, quando emigrou da Galiza. Ele também viveu e trabalhou no cais. Não foi afortunado e retornou aos poucos anos, mas sempre conservou a lembrança daqueles tempos quando era moço na Bahia.
P.S.
Um pormenor curioso!
Alguns dos meninos (provavelmente a maioria) estão inspirados em pessoas reais. Um exemplo é Volta-Seca, aquele menino que sonha com ingressar na banda do rei do cangaço, o Lampião. Lembro que o cangaço foi uma sorte de bandidagem caraterística do Nordeste do Brasil, imortalizada pela literatura e o cinema. De facto, ele foi um dos cangaceiros mais conhecidos da banda, na qual entrou quando era apenas uma criança. A tradição conta que foi o autor de dois dos mais conhecidos hinos cangaceiros: «Mulher rendeira» e  «Acorda Maria Bonita». Morreu em 1997.

terça-feira, 4 de março de 2014

Eusébio Macário e A Corja, de Camilo Castelo Branco


Cada vez mais sou da ideia de que Camilo Castelo Branco é o escritor que mais nos aproxima daquilo que poderia ter sido a narrativa em galego do século XIX, no caso de que tivéssemos uma literatura inteiramente assentada naquela altura. O mundo ficcional do Camilo é quase sempre o norte de Portugal, nomeadamente a região do Minho e parte ocidental de Trás-os-Montes.

Fonte da imagem: http://casadecamilo.wordpress.com/tag/eusebio-macario/

No prefácio da edição conjunta de Eusébio Macário e a Corja (Edições Caixotim), J.Cândido Martins atribui a estas duas obras o caráter de pastiche parodístico dos doutrinas do realismo e naturalismo literários.

A chamada Questão Coimbrã (1865-66) e as Conferências Democráticas do Casino Lisbonense (1871) são o enquadramento de partida das nova estética realista em Portugal. Os romances O Crime do Padre Amaro (1875) e O Primo Basílio (1878), de Eça de Queirós, inscreve-se na tentativa de "pintar" a sociedade portuguesa, com base antes na "verificação" do que na "imaginação".

Camilo Castelo-Branco será crítico com o espírito iconoclasta e a alegada novidade da estética realista-naturalista, postulando que os representantes de tal escola "se esqueciam de uma longa tradição realista, presente desde os primórdios da literatura europeia", e "sustentando que a questão do realismo era tão velha como a própria literatura" (Cito J.Cândido Martins). Camilo também criticará o excesso de descrições, o "daltonismo psicológico" ou a pretensão experimental da nova escola. Este distanciamento doutrinário do Camilo não obstará, porém, a que ele próprio seja influenciado pelo realismo e naturalismo, como se pode observar em A Brasileira de Prazins.

Numa excelente síntese, Cândido Martins atribui os seguintes princípios estético-doutrinários à escola realista: atualidade, quotidiano,impassibilidade, verosimilhança, coloquialidade, descrição e explicação.

O primeiro elemento parodístico do Eusébio Macário é o subtítulo (História natural e social de uma família no tempo dos Cabrais), que remete para o nome dado ao conjunto romanesco dos Rougon-Macquart de Zola: Une famille sous le Second Empire.

O Cabralismo desenvolveu-se nomeadamente entre 1842 e 1846, na altura do reinado da rainha D.Maria I. Com base na constituição de 1826, este sistema tentou defender-se tanto dos absolutistas (miguelistas), quando dos liberais exaltados. Costa Cabral, que dá nome ao movimento, foi um valido da rainha. O seu governo foi caraterizado pelas reformas administrativas e as grandes obras públicas. A revolução de Maria da Fonte, em 1846, pôs fim a este período.

O acontecimento que põe em andamento a trama do Eusébio Macário é o regresso do Brasil Bento José Pereira Montalegre às Terras de Basto, de onde é originário, e onde mora a sua irmã Felícia. Felícia namora com um abade, Justino, a quem conheceu nas proximidades de Montalegre, na terra de Barroso. O brasileiro Bento Pereira casar-se-á com Custódia Macário, filha do boticário Eusébio Macário. O filho, José Macário, acabará por casar com a Felícia, que abandona o abade.

A "ubérrima" Terra de Bastos, cenário de parte do romance de Camilo.


O ascenso social da família Macário leva-os da terra de Basto a Lisboa e ao Porto, onde se estabelecem. O abade, que continua apaixonado pela Felícia, irá também ao Porto para tentar recuperá-la. A Corja desenvolve a vida da família no Porto e Lisboa, num ambiente frívolo e decadente, onde adultérios e traições se sucedem.

Cativou-me nestes dous livros o teor paródico, magistralmente plasmando no uso da língua, e o retrato que Camilo faz dos novos ricos vindos do Brasil e da vida decadente e devassa que envolve a família dos Macário no Porto.

Já no início do livro, a descrição pormenorizada de um relógio de aldeia, lembra de maneira irónica as descrições pormenorizadas tão frequentes nos romances naturalistas:

Havia na botica um relógio de parede, nacional, datado de 1781, feito de grandes toros de carvalho e muita ferraria. Os pesos, quando subiam, rangiam o estridor de um picar de amarras das velhas naus. Dava-se-lhe corda como quem tira um balde da cisterna. Por debaixo da triplicada cornija do mostrador havia uma medalha com uma dama cor de laranja, vestida de vermelhão, decotada, com uma romeira e uma pescoceira, crassa e grossa de vaca barrosã, penteada à Pompadour, com uma réstia de pedras brancas a enastrar-lhe as tranças. Cada olho era maior que a boca, de um vermelho de ginja. Ela tinha a mão esquerda escorrida no regaço, com os dedos engelhados e aduncos como um pé de perua morta; o braço direito estava no ar, hirto, com um ramalho de flores que parecia uma vassoura de hidrângeas. Este relógio badalara três horas, que soaram ríspidas como as pancadas vibrantes, cavas, das caldeiras da Hécate de Shakespeare.

Também passa pela peneira da paródia é a prosa de inspiração bucólica, como a de Rodrigues Lobo:

O arrebol da tarde franjava de purpura as agulhas da montanha; espinhaços dos últimos horizontes de serra recortavam-se como sentinelas nocturnas dum baluarte de cíclopes ; espigões enormes pareciam braços hirtos dos legendários titãs a escalarem o olimpo ; filas cerradas de pinheiros lá em cima nas cumeadas lembravam esquadrões de gigantes, pasmados, a olharem para nós,burlescos pigmeus, que andamos cá em baixo a esfervilhar como bichinhos revoltos nas enormes podridões verdoengas do planeta. Ele olhava para tudo aquilo com cara de asno, não percebia mitos nem ideais, e pensava na cea. 



Raparigas desciam das encostas hervecidas com rebanhos a dessedentarem-se rem-se nos ribeiros; cabritos alcandoravam-se em rochedos com balidos cerebros e ginásticas elegantes; bois escornavam-se com pancadas sonoras d'uma dureza cava. E o Justino, o estudante saltava dos vallados sombrios à laia de sátiro, como tigre faminto do palmar, e enviava-se fremente ás pastoras, dando-lhes abraços bestiais, hercúleos, e ferradelas cupidíneas, dissolventes, nos cachaços sensuais penujentos. Elas casquinavam risadas inocentes, fugiam, deixavam-se agarrar, botavam-se a ele, às três e às quatro, atiravam-no ao chão, cabiam de embrulho, e espojavam-se todos, qual por baixo qual por cima, escouceando-se, com uma candura bucólica digna de Rodrigues Lobo e de muito chicote.

Do ponto de vista da língua, interessam os numerosos excertos em que se parodia o uso de francesismos, muito frequentes na literatura de teor naturalista.

Também o sotaque do brasileiro Bento José Pereira é reproduzido marcando os traços rítmicos, sintácticos e lexicais do português do Brasil:

(..) porque a religião mi párece précisa para o povo (página 98)

(..) E o abade é exempelar (página 99)

(..) É a primêra moça galante que mi ápárece no Minho (102)

O livro dava para muito mais, mas não quero ser chato. Ah! Hoje mesmo devolvo este livro na Biblioteca Ângelo Casal, de onde o podem levar emprestado.

Acresci ao texto algumas fotografias que tirei há um par de meses nas Terras de Basto, onde se desenvolve parte do romance.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O Mapa Cor de Rosa, de Maria Velho da Costa


Maria Velho da Costa escreveu estas crónicas em Londres, entre dezembro de 1980 e outubro de 1982. A autora leva-nos da mão pela cidade adiante, parando um bocado para descansar com as tílias do jardim de Gordon Square à nossa volta. Da Inglaterra, testemunhamos a depressão económica da época Thatcher e o começo da guerra das Malvinas. De Portugal, ao longe, a deceção que se seguiu ao fim do processo revolucionário do 25 de abril. O tom é confessional, quase de carta. Para seguir os meandros da prosa, alguns parágrafos pedem uma segunda leitura. 



O clube de leitura Tuga-Lugo-Lendo vai-se debruçar sobre Myra, desta mesma autora. Foi por isso que levei emprestado O Mapa Cor de Rosa da biblioteca de filologia da USC, onde loguinho o voltarei a deixar para o caso de que alguém mais se anime a lê-lo. Apanhado numa época de bastante trabalho, umas crónicas davam-me jeito para ler entre insónia e insónia. Atraíram-me as ilustrações do argentino Oscar Zarate que acompanham a primeira edição do livro: três punks no metro, o escritório da autora, Virginia Woolf lendo num parque.

O Mapa de Cor de Rosa que dá título ao livro diz respeito às pretensões de Portugal, no último quartel do século XIX, de estender o seu império do Atlântico (Angola) ao Índico (Moçambique), que seriam frustradas pelo Ultimato britânico de 1890, que exigia a Portugal a retirada dos territórios dos atuais Zimbaué e Zâmbia – memorando que seria interpretado como uma traição à antiga aliança luso-britânica. 


O Londres de que fala Maria Velho acompanha bastante bem este janeiro de 2014 em Compostela, em três eixos de desassossego: crise, exílio e invernia.

O desemprego, as privatizações e subidas de preços de bens básicos deixavam poucas abertas para a esperança naquele começo da anos 80 na Inglaterra, também marcados pelo aumento da xenofobia e o começo da guerra das Malvinas, sobre a qual a autora se interroga repetidamente. No pano de fundo, vemos também pairar a rainha vestida de cor-de-rosa, e Ronald Reagan em visita oficial.

O exílio começa no próprio ato da escrita: porque se escreve sempre em terra alheia, em língua que não é mãe, assim entre amante e madrasta. Londres já entrara na literatura portuguesa da mão do Eça, Ramalho Ortigão, Almeida Garrett, e outros. Jorge de Sena vivia na cidade naquela altura, e o livro presta-lhe homenagem nos versos iniciais. Desse espaço de exílio parte-se para o exercício de dar sempre mais e mais voltas em volta de Portugal – e sempre com a saudade, o sarcasmo e o amor doentio interligados das mais intrincadas maneiras.

Ora, para salvar este túnel sem saída da ciclogénese de janeiro em Compostela, veio a Maria Velho da Costa com a invernia de Londres embrulhada em papel de fish and chips – peixe com patacas fritas, em jeito de louvor da gordura. De tarde em tarde, de rua em rua, de abandono em abandono, somos levados a encontrar um ponto de fuga no meio da desolação e a indolência:

São cinco horas da tarde. Em novembro, às três e meia cai o dia, às quatro a noite cerrada. Chove, essa chuva de Londres que raro jorra em toalha que escoe os céus. Está hoje porém um vendaval desusado, a rajada longa que arranca o que resta da folha viva e miúda, os jardins e parques em assembleias iradas; de braços ao ar, num rugir e estalar de ramos. Como o inverno é propício para a alegria, ao prazer do trabalho, aos trabalhos do prazer. É o tempo da luz dentro da casa, da consolidação dos afetos e das casas, onde as memórias se consolidam com vagas dormentes.

E se o livro leva o Mapa Cor de Rosa na capa, não é por acaso que a última crónica leve por título Tratado de Windsor, que em 1383 deu início à longa aliança luso-britânica. O encontro entre o Duque de Lencastre – que vinha de Celanova – e o rei D. João I aconteceu na Ponte do Mouro, no concelho de Monção. Sim, estivemos bem pertinho dali na visita da EOI Santiago a Monção, no dia 25 de janeiro. Eis outra das vias avessas que trazem este Mapa Cor de Rosa da Maria Velho da Costa à Compostela em janeiro de 2014.

 Fonte da imagem: Wikipédia.

Londres não é a cidade de Maria Velho da Costa – mas dificilmente adoptaria outra para tão íntima passagem de estar, diz ela no fim.


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Axilas & Outras Histórias Indecorosas, de Rubém Fonseca


Aproveitei a noite anterior à viagem com a EOI a Monção para ler este livro do Rubém Fonseca - estava mesmo com medo de ficar adormecido e perder o autocarro.

Axilas & Outras Histórias Indecorosas (2011) foi recentemente publicado em Portugal pela Sextante Editora, bem como outros títulos recentes do escritor brasileiro. Eu peguei o livro emprestado da biblioteca Ângelo Casal, onde irei deixá-lo hoje novamente. Lá podem encontrar outras obras dele, como o magnífico A confraria dos espadas.




Para quem não ouviu falar do Rubém Fonseca, ele é conhecido enquanto mestre do género policial em língua portuguesa. Ele próprio trabalhou como polícia em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Posteriormente foi professor de Psicologia na Fundação Getúlio Vargas.

Rubém Fonseca começou a escrever em idade tardia, sendo o primeiro romance de 1973 (O caso Morel). Em 2003 recebeu o Prémio Camões. Com 89 anos de idade, continua a escrever a bom ritmo. Nas suas obras transparecem as influências da literatura norteamericana, nomeadamente do género negro, e também do cinema. Ora, ele criou um estilo bem próprio, que acabou por influir em muitos autores do género, como a romancista brasileira Patrícia Melo.

Vamos então aos contos do Axilas, que se vai lendo em ziguezague: de algum rasto de compaixão à muita crueldade; da crueldade ao absurdo; do absurdo acelerado ao riso; do riso à vontade de fugir através da leitura; e sempre com Instituto de Medicina Legal ao fim do caminho - eis como as palavras do Rubém Fonseca ultrapassam o previsível, como os carros que ultrapassam de faixa em faixa na Avenida Brasil do Rio de Janeiro.

No conto que dá nome à coleção, "Axilas", uma paixão por essa parte do corpo leva o protagonista a perpetrar o impensável. Na abertura da história, o narrador compara a sua contemplação de um braço com a que teria feito o seu bisavô:

   Eu ainda não sabia o seu nome, que depois descobri ser Maria Pia. Ela já estava sentada quando vi os seus braços, braços finos, que para o meu bisavô não causariam o menor interesse, ele provavelmente os acharia feios. Além do mais, Maria Pia usava uma manga cavada e os braços estavam totalmente desnudos. Meu bisavô gostaria que ela usasse mangas curtas meio palmo abaixo do ombro e que seus braços fossem cheios do jeito que Machado de Assis descreve no conto “Uns braços”. Maria Pia era fina, toda ela, eu sabia, desde o início, vendo-lhe apenas os braços. E quando ela deu-lhes movimento, pude ver parte da sua axila.

    A axila da mulher tem uma beleza misteriosamente inefável que nenhuma outra parte do corpo feminino possui. A axila, além de atraente, é poética.”

A axila leva-nos até ao surpreendente fim do conto, que aqui não vou desvendar.

O que não posso esconder é a permanente presença da morte neste romance, apto para ser lido de rabecão a caminho da morgue: isso sim, sempre a seguir a alguma noite de intensa e pomposa atividade erótica.

Ao contrário do que acontece noutros livros do género, com Rubém Fonseca vamos alternando o ponto de vista do tira (policial) e do criminoso, sem que nunca saibamos ao certo que viragem surpreendente vai acontecer na história. Assim decorre a história "Janela sem curtina", onde assistimos ao encontro de um cruciverbalista e uma dubladora

Há coisas que acontecem a esmo, sem motivo ou explicação. O certo é que encontrei Alice novamente. Morávamos no mesmo prédio há anos e agora encontrávamo-nos duas vezes num curto espaço de tempo. 


O mundo que se mostra nestes contos não é adocicado, e o que vem à tona é uma sociedade em plena descomposição moral.

Os criminosos agem com mais serenidade do que paixão, misturando o crime com pensamentos que vão da sexualidade frontal à literatura e filosofia, sem que falte o sentido do humor. Ainda no mesmo "Janela sem curtina". 

Preciso falar com você, me disse.

Você gosta de miolos?

Farei miolos hoje para o jantar, você quer ir jantar comigo, ela perguntou?

Adoro miolos, claro que vou, a que horas, senhora dubladora?


* (Dobragem ou dublagem é no Brasil o que em Portugal é legendagem)

E o pano de fundo?

Para recordar que o cenário em que as histórias decorrem não é propriamente idílico, Rubém Fonseca deixa-nos pequenas engenhocas verbais como esta aqui:

Deitei-me depois das quatro, se estivesse na roça os galos já estariam cantando, mas só ouvia o barulho do caminhão da prefeitura recolhendo o lixo da rua, e o baque surdo das caixas plásticas de detritos sendo despejados num local onde eram triturados por roldanas metálicas giratórias. (Página 34)

O Rui Zink dá no alvo ao comparar as frases do R.F. com rajadas curtas de bala, e ao pôr em destaque o facto de ele ser um grande estilista.

E não quero adiantar muito mais do livro. Deixo-vos, sim, com o Conto "Livre-Alvedrio", porventura aquele de que mais gostei, a aonde chegam ecos da origem portuguesa do próprio autor:

Uma coisa que eu não suporto é me perguntarem: "e porquê você entrou para a polícia"? Dou as respostas mais esdrúxulas, "porque gosto de estrelas" (não olho para o céu, e não vejo estrelas há mais de vinte anos), "porque gosto de banana frita" (odeio), "porque meus pais eram portugueses".

Essa última resposta tem fundamento, mas a resposta fica para depois, talvez.


Para depois, talvez. Como não podia ser doutra forma, neste mestre do conto.




Veja-se:

Entrega de um prémio a Rubém Fonseca em Portugal.

Vídeo do Rui Zink sobre o livro A grande arte de Rubém Fonseca, que o marcou.

Algum vocabulário brasileiro que aparece no livro:

A porta do carona de um carro é a do acompanhante que vai ao pé do motorista. Pegar carona e dar carona é o mesmo no Brasil do que pedir e dar boleia em Portugal, isto é, transportar alguém de maneira gratuita num carro. A origem é a palavra espanhola carona, uma cobertura de couro que se costumava pôr cima da sela do cavalo.

Um apartamento de cobertura como do conto Paixão, é, segundo o dicionário Michaelis,  um Apartamento do último andar de um edifício que possui um grande terraço na laje de cobertura.


Diz-se nesse mesmo conto: Mas eu não ia obedecer aquele intolerável ucasse da Nely. "Ucasse" é uma ordem ou decisão dogmática e autoritária. A origem da palavra é nuns antigos decretos dos czares da Rússia.

No conto "Intolerância", depois de uma cena em que o narrador e a Gisleine andam a enxugar os pratos, o narrador diz que a bunda dela foi para o beleléu: beleléu é um lugar muito distante - neste contexto o significado seria próximo de sumir, desaparecer. O que a palavra bunda significa, prefiro que vocês próprios pesquisem.

No mesmo conto, diz-se: eu ia ter que dar o bilhete azul para a Diana. Dar o bilhete é despedir, ou demitir alguém.

Encher o saco de alguém é chatear, aborrecer alguém.

De maneira recorrente aparece a palavra macete, derivada de maço:

mas eu não podia repetir aquele macete, tinha que inventar outro...

O dicionário Michaelis define a expressão como: Chave de solução para charada ou situação cujos termos se desconhecem. Recurso astucioso para se fazer ou obter algo.

O xadrez é a prisão ou posto policial. O tira é coloquialmente o polícia (Pt), ou policial (Br). 

E um penhoar desabotoado como o de Dona Lúcia ("O vendedor de livros") é mais ou menos o mesmo que um robe em Portugal. Podem procurar imagens no Google.

Isso me parece papo furado: um "papo furado" é uma mentira ou conversa sem fundamento.

Uma rua grã-fina é uma rua onde moram pessoas ricas, chiques. Ao contrário, um(a) pé-rapada é uma pessoa sem condições, pobre. As duas expressões aparecem no livro. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Segunda sessão do clube de leitura Léria


O clube de leitura Léria, da EOI de Santiago de Compostela, iniciou a sua programação com Os da Minha Rua, de Ondjaki, com sessão de debate realizada no dia 17 de dezembro de 2013. A visita de Ondjaki a Compostela (livraria Ciranda) foi o melhor complemento que poderia ter tido esta primeira escolha.

Na passada terça-feira 21 de janeiro juntamo-nos para falar de O Último Cais, de Helena Marques. Afortunadamente, o debate logo surge neste clube, sem necessidade de muitos materiais complementares. As impressões do livro foram em geral positivas, apontando como pontos fortes: a construção de algumas personagens, como Marta e Maria; a ambientação bem lograda do ambiente do século XIX na Madeira; a atualidade de muitas das situações apresentadas no livro, nomeadamente no que toca à situação das mulheres e às incipientes lutas de emancipação.

Na secção de Recursos do blogue da rede de clubes de Leitura Pega no Livro  podem encontrar alguns dos materiais que usamos no debate sobre O Último Cais e Os da minha rua.

Ora, menos consensuais foram outros aspetos do livro, como a densidade das descrições, o excesso de informação sobre algumas personagens e a dificuldade em seguir o enredo devido à complicação das relações de parentesco. Neste sentido, assinalou-se que teria sido pertinente a inclusão de um esquema final com a árvore genealógica.

O clube segue agora em frente com Inês de Portugal, de João Aguiar, escolhido entre todos os clubistas.



segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

De ilha em ilha, com Helena Marques


2º CONVERSA AO PÉ DOS LIVROS DO CLUBE DE LEITURA LÉRIA

O ÚLTIMO CAIS, DE HELENA MARQUES

21 DE JANEIRO, 20H00, SALA 5 DA EOI

QUER TENHAS

QUER NÃO TENHAS LIDO

APARECE!

  
Entra a bordo do Saint-Simon com um sentimento de irrealidade. "É autêntico", repete a si própria, "é autêntico, já não sou Penélope, já não sou a que fica fiando e tecendo, chegou a minha vez de partir e parto com Marcos, é o seu braço que segura o meu, é o seu riso que troça da minha excitação, como ele está feliz, divertido, jovem, sonhei toda a vida com a viagem e agora, quando tinha desistido porque Marcos parte definitivamente, agora acontece esta maravilha, vou viajar, avô, querido avô, vou viajar...

O último cais, Helena Marques